Sobre Autonomia da Política Monetária

banco central independente - apito para adversário

Metodologicamente, nunca se deve reduzir um fenômeno macrossocial a um monocausal. Pelo vício da nossa formação doutrinária, alguns economistas se especializam em analisar apenas aspectos microeconômicos, outros, macroeconômicos, assim como focalizar apenas os fatores internos ou só salientar o contexto internacional.

Acho que o bom analista eco deve ponderar todos os fatores. Evidentemente, é necessário dimensionar e analisar cada um deles. Dependendo do setor de atividade, por exemplo, importador ou exportador, um ou outro fator afeta mais.

Um problema é que a mídia — pelo espaço reduzido no jornal ou tempo na TV — reduz tudo a uma “declaração de princípios”. E o debate público se empobrece.

Em um debate na Globo News, tentei explicar para um público maior, provavelmente não acadêmico, o que seria o efeito da adoção de um Banco Central Independente (BCI) através de uma metáfora, pensando no jogo de futebol da véspera. Disse: “seria o equivalente a entregar o apito do jogo entre o Flamengo e o São Paulo ao técnico deste time paulistano. Ninguém duvida de sua competência técnica, mas todos os adversários duvidam de sua neutralidade ou imparcialidade. Técnicos não são neutros!”

Caso isso ocorresse, ele teria marcado dois pênaltis contra o Mengão: um porque o atacante do São Paulo tropeçou nas próprias pernas, outro em que a bola bateu na mão do zagueiro do time carioca, involuntariamente, dois metros fora da área. Aí o caro leitor/expectador poderia contra-argumentar: “isso de fato ocorreu!” Então, eu acentuaria: “o que prova minha tese de que nenhum técnico, nem o juiz, é neutro!”

Em outras palavras, o julgamento por parte de técnicos alocados em um BCI seguiria só determinada doutrina — no caso, de quem deu-lhes mandatos, p.ex., de 8 anos, além do próprio mandato do Presidente da República (re)eleito. Para o programa de um governo eleito democraticamente ser o seguido, ele não pode ser contraditado por uma equipe de técnicos oposicionistas. Senão seria como essa arbitragem (elevação da taxa de juros) só beneficiasse os rentistas (“coxinhas do São Paulo” — desculpem-me a ironia) e prejudicasse os trabalhadores (“toda a torcida brasileira do Flamengo”) com desemprego… Continuar a ler

Ex-Futuro Ministro da Fazenda: De Quem Nos Salvamos

E agora JoséDenise Neumann e Catherine Vieira (Valor, 18/09/14) continuam entrevistando economistas da oposição. Até agora não foi publicada nenhuma entrevista de página inteira com um economista claramente identificado com o PT e a candidatura da Presidenta Dilma Rousseff. Afirmam que o pedido do Valor para que a campanha Dilma Rousseff (PT) indique seu porta-voz econômico ainda não foi atendido. Óbvio, ela própria porta sua voz! Entrevistem-na.

Senão, não será publicado nenhum contraponto ao discurso oficial do “Quarto-Poder, A Imprensa”. Ressalve-se que esta será destronada desse Poder não eleito caso o Banco Central se torne independente…

Curiosa é a solidariedade dos tucanos nessa altura da campanha. Declaram: “Nem tudo está perdido…” Armínio Fraga necessita reafirmar que é “100% Aécio” e garantir que não considera a possibilidade de compor um eventual governo de Marina Silva (PSB). Não é escandaloso ser indiferente, para os gurus da Marina, o Ministro da Fazenda se tornar o nomeado pelo candidato concorrente?! Continuar a ler

À Procura da Felicidade Liberal

Ultraliberal GianettiDenise Neumann e Catherine Vieira (Valor, 06/09/14) apresentam o economista-filósofo Eduardo Giannetti como um dos principais conselheiros de Marina Silva, candidata do PSB à Presidência da República. Em eventual vitória da sua candidata, ele afirma que:

  1. a opção para fazer o ajuste econômico será pela via mais dura,
  2. os compromissos sociais assumidos no programa vão depender do equilíbrio fiscal e
  3. a indústria pode se preparar para uma operação “desmame”.

Embora evite detalhar como seria feito o ajuste econômico – e se ele incluiria o trivial neoliberal com aumento de juros e corte de despesas sociais para elevar o superávit primário –, Giannetti admite que “ele não será simples”. Não lhe é perguntado nada sobre os projetos em longo prazo em andamento. E nada de desenvolvimento lhe diz a respeito…

Antes de iniciar a entrevista, Giannetti avisa que não é “o” porta-voz econômico da campanha, mas um conselheiro e um dos formuladores do programa. Só?

Dito isso, lança mais uma frase-feita tipo sabedoria de autoajuda. “Não tenho a menor dúvida de que há um custo de fazer o ajuste, mas ele certamente é menor do que o custo de não fazê-lo”, disse. Porém, em todas suas experiências históricas — desde o Chile de Pinochet até a Inglaterra de Thatcher , isso sem falar na transição da URSS para a nova Rússia –, a Doutrina do Choque Ultraliberal provocou uma calamidade social.

Questionado se os compromissos assumidos no programa não são conflitantes com a perna fiscal do tripé macroeconômico, foi muito claro. “Os compromissos serão cumpridos à medida que as condições viabilizarem, sem prejuízo do equilíbrio fiscal.” Em outras palavras, dane-se o social e o ambiental, viva o arrocho fiscal!

Ao falar sobre a formação de um eventual governo Marina, ele deixou claro que “a nova política” também será abandonada logo, pois a campanha espera adesões tucanas desde já.

Ele repetiu que não se vê como ministro da Fazenda. Perguntado se técnicos do PSDB podem ter cargos no governo, disse que sim, e fez referência espontânea, sem citar nomes, aos quadros técnicos do PT do primeiro mandato de Lula, “que são de extraordinária qualidade”. Faziam parte daquele grupo Joaquim Levy, Marcos Lisboa e Bernard Appy, entre outros – entre os quais o modesto blogueiro que aqui escreve assim como outros desenvolvimentistas, especialmente, alocados nos bancos públicos. Mas, certamente para ele, “meu tipo de gente não tem a qualidade ideológica que ele aprecia…” snif, snif…

Leia, a seguir, trechos da entrevista. Continuar a ler

Diga-me com quem andas e eu te direi quem és!

Palocci e Marcos Lisboa

Diga-me com quem andas e dir-te-ei [que língua, a nossa!] quem és”. Millor Fernandes comentou sobre essa sentença: “Pois é, Judas andava com Cristo, Cristo andava com Judas…” Digo eu hoje: “Pois é, Marina anda com ultraliberais, que receberam um ‘passa-fora moleque’ do Presidente do PSB, na campanha, e no futuro, certamente, trairão o ideário de Marina…”

Ideário é o conjunto das ideias principais de um autor, de uma doutrina, movimento, partido, etc. No caso, qual é o programa de ação, o conjunto de aspirações, o espírito dessa agremiação de origem socialista? Vejo mais social-desenvolvimentismo ambientalista no PT do que na “colcha-de-retalhos” que é o Programa de Governo do PSB feito por várias mãos de ideologias distintas e sujeito a contínuas revisões por parte da candidata evangélica de acordo com as pressões dos pastores.

Então, para elaborar um cenário econômico do que, de fato, poderá ocorrer caso a Marina vença a eleição e os ideólogos ultraliberais recebam “carta-branca” para “darem as cartas” e preencherem o vácuo de ideias econômicas consistentes no programa anunciado, analisaremos em uma série de posts entrevistas recentes de alguns “gurus econômicos” da Marina e/ou Aécio. Continuar a ler

Entrevista sobre Independência do Banco Central na Globo News

Globo-News-Mirian-Leitão

Fui convidado para participar do Programa Globo News Economia, cuja entrevistadora foi a Míriam Leitão e o outro convidado para o debate a respeito de Independência do Banco Central o professor da PUC-RJ Márcio Garcia.

O “ping-pong” das perguntas foi muito rápido e temo que não tenha conseguido desenvolver meu raciocínio de forma analítica e didática. Terei de conferir. Por exemplo, tentei explicar para um público maior, provavelmente não acadêmico, o que seria o efeito da adoção de um Banco Central Independente (BCI) através de uma metáfora, pensando no jogo de futebol na véspera. Disse: “seria o equivalente a entregar o apito do jogo entre o Flamengo e o São Paulo ao técnico deste time paulistano. Ninguém duvida de sua competência técnica, mas todos os adversários duvidam de sua neutralidade ou imparcialidade. Técnicos não são neutros!”

Caso isso ocorresse,  ele teria marcado dois penaltis contra o Mengão: um porque o atacante do São Paulo tropeçou nas próprias pernas, outro em que a bola bateu na mão do zagueiro do time carioca, involuntariamente, dois metros fora da área. Aí o caro leitor/expectador poderia contra-argumentar: “isso de fato ocorreu!” Então, eu acentuaria: “o que prova minha tese de que nenhum técnico, nem o juiz, é neutro!”

Em outras palavras, o julgamento por parte de técnicos alocados em um BCI seguiria só determinada doutrina — no caso, de quem deu-lhes mandatos, p.ex., de 8 anos. Para o programa de um governo eleito democraticamente ser o seguido, ele não pode ser contraditado por uma equipe de técnicos oposicionistas. Senão seria como essa arbitragem (elevação da taxa de juros) só beneficiasse os rentistas (“coxinhas do São Paulo” — desculpem-me a ironia) e prejudicasse os trabalhadores (“toda a torcida brasileira do Flamengo”) com desemprego…

Preparei um roteiro com possíveis temas do debate: Entrevista de Fernando Nogueira da Costa sobre Independência do Banco Central 250914. Uso séries temporais de longo prazo (1994-2014) — e não oscilações conjunturais trimestrais — para analisar tendências históricas. Baseado nelas, afirmei que, há 10 anos, a taxa de inflação anual encontra-se abaixo de 6,5% aa, absolutamente sob controle. E a economia brasileira entre as dez maiores do mundo — é a sétima –, de 2009 a 2013, só cresceu menos do que a China e a Índia. Estas três são justamente, entre essas, as que não têm BCI! O Brasil cresceu, nesse período, quase o mesmo que a Economia Mundial em crise: 2,7% aa contra 3% aa.

Quem desejar ver o debate, o Programa Globo News Economia é gravado às 08:30, passa 20:00 na quinta-feira e é repetido em vários momentos na sexta-feira. Fica arquivado no seguinte endereço:

http://globosatplay.globo.com/globonews/v/3655046/

Marina Silva e a Lógica das “Independências” (por Bruno Conti)

Bruno de ContiBruno De Conti é professor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (Cecon/Unicamp). Publicou uma ótima análise, no JB, crítica à proposta ultraliberal do programa de Marina Silva de só implantar “regras e metas com o propósito de manietar o Estado brasileiro e evitar “ações discricionárias” do governo, que são tomadas no sentido de superar o atraso socioeconômico histórico do País. Caso ela ganhar a eleição, estará implantado o “liberou geral!” Salve-se quem puder, pois naturalmente não serão salvos “os incompetentes com pouco poder de mercado“…

“Nas campanhas eleitorais, a escolha das palavras é importante. Para assuntos econômicos, a tarefa é um pouco mais inglória, já que o “economês” pode ser de difícil compreensão. No entanto, nada impede que no meio das expressões sejam jogadas algumas palavras bonitas para que fique tudo resolvido. “Independência” é uma palavra cativante; soa bem e todos almejam. Responsabilidade, autonomia e austeridade fazem parte desse mesmo grupo.

Mas e a independência do Banco Central (BC), proposta por Marina Silva, o que quer dizer? Segundo o programa de governo da candidata, essa independência significa “que ele[BC] possa praticar a política monetária necessária ao controle da inflação”. Algo que já faz parte das tarefas do Banco Central, mas com uma diferença importante: o BC poderia buscar esse objetivo de forma “independente” em relação ao governo e às suas prioridades, pois teria um mandato fixo. Ou seja, poderia perseguir as metas sem se preocupar com nada além das próprias metas. Continuar a ler

Mito III do Debate Econômico Pré-Eleitoral: “Finanças Públicas Descontroladas”

Evolução do gasto da União com Pessoal e Encargos Sociais 2010-2014

Dando sequência à análise dos falsos “mitos” que aparecem no debate econômico pré-eleitoral, depois de publicar o Mito I – Modelo de Crescimento pelo Consumo e o Mito II – Inflação Alta e Descontrolada, apresentamos o terceiro: a crítica que as Finanças Públicas estariam destrambelhadas. O quarto é Mito IV – Pleno Emprego.

Uma das principais características do gasto público durante o governo Dilma Rousseff foi a queda da despesa da União com o pagamento de pessoal e encargos sociais, em proporção do Produto Interno Bruto (PIB), e sua posterior estabilização em torno de 4,2% do PIB. Essa trajetória, segundo Ribamar Oliveira (Valor, 14/08/14), foi obtida mesmo com o menor crescimento da economia brasileira, cujo PIB é a base de comparação com a despesa de pessoal, nos últimos quatro anos. Observe que o correto é a comparação com o PIB e não a variação real. Se a renda subir, a arrecadação tributária eleva-se e pode-se elevar o gasto fiscal correspondentemente.

O gasto com pessoal cresceu muito nos últimos anos do governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que promoveu uma necessária rodada de aumentos salariais para todas as categorias de servidores. A despesa com pessoal subiu para 4,7% do PIB em 2009, pouco abaixo do recorde nos últimos 15 anos, que ocorreu em 2002, em ano eleitoral, o último do Governo FHC, quando chegou a 4,8% do PIB. Continuar a ler