Inflação de Preços Administrados em 2015: Alarmismo de Economistas Parciais

 

Preços Administrados X Livres

Economistas com claros vieses políticos, em ano eleitoral, fazem projeções alarmistas. Fantasiam com áurea de ciência o que é mera proposição normativa subjetiva sobre “o que  deveria ser”. Afinal, se há defasagem de preços, ela ocorre em relação a que data? Qual é o “equilíbrio” de preços relativos de referência? Favorável a quem? A quem interessa a correção de preços? Ela seria somente favorável aos acionistas doadores de campanha? Se quem anuncia e se dispõe a adotar “medidas impopulares” é o candidato das elites (Aécio), que tem, em média, apenas 15% das intenções de votos, esse seu programa de deixar O Mercado livre na fixação dos preços será anunciado, claramente, na campanha eleitoral? Cometerá o sincericídio?!

Denise Neumann e Claudia Safatle (Valor, 25/04/14)  informa que os cenários traçados para a inflação de preços administrados em 2015 embutem uma recomposição parcial das tarifas de serviços como energia elétrica e ônibus urbano e do preço dos combustíveis, apesar da recente aceleração dos Índices Gerais de Preços (IGPs) e do aumento dos custos nesses segmentos. Na média, as projeções para preços administrados variam entre 4,5% e 5% para este ano e entre 5% e 5,7% para 2015, com um cenário mais radical onde a alta poderia chegar a 7%. Apesar das defasagens acumuladas, uma recomposição integral das diferenças não está no cenário de nenhum analista. Continuar a ler

CADE contra Cartel do Cimento

CADE contra Cartel do Cimento

Como se construiu um ambiente mais competitivo na economia norte-americana? Para enfrentar a “era do capitalismo-bandido dos barões-ladrões”, tipificada por trustees e carteis, a Sociedade Civil e a Sociedade Política dos EUA tiveram de se organizar e lutar. Entre 1898 e 1902, ocorreu a primeira onda de fusões de empresas do mundo chamada de “Era dos Barões Ladrões” devido à forte ação monopolística. Isto provocou o crash financeiro de 1904 após o qual veio um forte movimento regulador com legislação antitruste e quebra dos monopólios (Standard Oil, DuPont etc.). A toda poderosa Standard Oil, que dominava as áreas de refino e distribuição de combustível, no mercado mundial, foi dividida em 34 empresas. Em 1907, Andrew Carnegie e John D. Rockefeller II (magnatas do aço e do petróleo), com seus negócios afetados, foram procurar novos investimentos.

Juliano Basile (Valor, 02/04/14) informa que as punições às empresas envolvidas no caso conhecido como “cartel do cimento” podem ultrapassar os R$ 3,1 bilhões em multas propostas pela maioria dos integrantes do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), pois o Ministério Público Federal está entrando com ações de reparação e apenas numa delas, que foi proposta no Rio Grande do Norte, pede pena de R$ 5,6 bilhões. Somados os valores das multas do Cade com o da ação do MPF resultam em R$ 8,7 bilhões.

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Até Que Um Dia, Agência de Avaliação de Risco decreta: Imposição de Ortodoxia e Proibição de Keynesianismo!

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O Mercado — e o deslumbrado jornalismo econômico brasileiro calcado em fontes oficiais empresariais — ficou reincidentemente feliz com a decisão da agência Standard & Poor’s, que rebaixou o rating do Brasil, da Petrobras e da Eletrobras, e dos bancos públicos federais. Idem para a oposição, cujo único objetivo é derrubar o PT da Presidência da República, mas sem oferecer nenhum programa governamental melhor para a sociedade brasileira.

Nenhum deles — O Mercado, A “Grande” Imprensa, a pequena oposição — deixou de gozar com mais essa tentativa de impor um pensamento econômico único a todos os países e em todos os tempos, inclusive em tempo de crise. A imposição é de austeridade para demonstrar capacidade de pagamento da dívida pública e corte de gastos públicos (sociais e em infraestrutura) para compensar a queda da demanda efetiva privada.

Acontece que as Finanças Públicas brasileiras estão sob controle e muito melhores do que países que têm melhor rating dessas agências. Agora, o Brasil está na companhia de países tão diversos como Islândia, Filipinas e Uruguai, cujo potencial econômico é estruturalmente inferior. As agências continuam a errar com seus preconceitos ortodoxos, assim como errou, vergonhosamente, em avaliar com AAA bancos que quebraram na crise de 2008! Que credibilidade restou a elas? Aquela oportunista dos especuladores que compram na baixa artificialmente provocada para vender na alta determinada por avaliação posterior mais sensata dos fundamentos da economia.

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Conta de Juros Grande e Favela – Formação da Elite Rentista no Capitalismo Tardio e Periférico

Matias Vernengo cultura divulgacao

Conheci Matias Vernengo virtualmente antes de conhecê-lo pessoalmente. Ele foi o co-organizador (junto com Luis-Philippe Rochon) do livro “Credit, Interest Rates and the Open Economy: Essays on Horizontalism“, publicado em 2001 pela melhor editora de livros de Economia no mundo, a Edward Elgar. Convidou-me para escrever um capítulo, que intitulei Horizontalism and Inflation Accomodation, aplicando a interpretação de Basil Moore à realidade brasileira. Foi uma surpresa para mim, que estava condenado por todos os pós-heynesianos fundamentalistas brasileiros ao eterno ostracismo por ter ousado questionar as ideias hegemônicas de Paul Davidson e seu discípulo brasileiro, meu amigo Fernando Cardim de Carvalho, especialmente o dogma da Preferência pela Liquidez absoluta, inclusive de bancos, para todo o sempre, amém… Rotulavam-me como “horizontalista”. Portanto, eu estava “morto e enterrado” para eles…

Surpresa boa foi, muitos anos depois, ter conhecido Vernengo no I Congresso Internacional do Centro Celso Furtado, quando ministrei a palestra final no Auditório do BNDES, justamente, com um ícone do “fundamentalismo pós-keynesiano”, o Jan Kregel. Ele é um portenho-carioca que herdou a cultura dos argentinos e o humor dos cariocas. E não deixarei a dica para ninguém comentar “pior seria o vice-versa”! Adoro os cariocas e tento entender os portenhos…

Bom, Matias Vernengo também é do tipo “perde-um-amigo-mas-não-perde-uma-piada”. E eu gosto de quem não leva a si e ao mundo muito a sério…

A boa notícia é que ele publicou, recentemente, um livro no Brasil: “Conta de Juros Grande e Favela – Formação da Elite Rentista no Capitalismo Tardio e Periférico”. Alcino Ferreira Camara Neto e Matías Vernengo. Editora: BRVCom Cultural. 194 págs. R$ 55,00. Ainda não o adquiri, mas certamente está na minha lista para a próxima visita à livraria.

Cyro Andrade (Valor, 11/03/14) o resenhou. Reproduzo abaixo sua resenha e entrevista com o Vernengo. Temo que, pelo conteúdo delas, provocarei novamente polêmica se eu publicar um livro que estou finalizando, denominado “Finanças dos Trabalhadores no Capitalismo de Estado Neocorporativista: Uma Experiência Social-Desenvolvimentista”. Defendo nele não só que as Finanças dos Trabalhadores são fundamentais para o Capitalismo Tardio e Periférico, como também que os trabalhadores têm de obter Educação Financeira para se tornarem rentistas! Corro o risco dessa palavrinha colocar meu livro no Index Librorum Prohibitorum

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Política de Juros: Arte e não Ciência

Taxa Real de Juros 2001-2013Taxa Anual Real de Juros no Brasil 1991-2011Conheci o jornalista Alex Ribeiro em Brasília. Lá, ele cobriu o Banco Central durante 15 anos para o Valor, a Gazeta Mercantil e a Folha de S. Paulo. É especializado em economia pelo BirkBeck College, Universidade de Londres, e tem um MBA em Finanças pela Fundação Getúlio Vargas. Foi correspondente do Valor em Washington. Entende de Economia acima da média dos jornalistas econômicos.

Em sua coluna (Valor, 12/03/14), acho que exagerou ao afirmar que “o Banco Central já subiu a taxa básica de juros em 3,5 pontos percentuais desde abril de 2013 e, com mais uma alta que o mercado espera para o mês que vem, o ciclo atual de aperto vai figurar entre os maiores na história do regime de metas de inflação. Para dar uma ideia da intensidade do torniquete, o ex-diretor de Política Monetária do BC Afonso Bevilaqua consolidou sua fama de ultraconservador ao liderar, entre 2004 e 2005, uma alta de juros de 3,75 pontos percentuais que derrubou o IPCA para 3,14% em 2006. [Vale analisar os gráficos acima com as bandas de juros reais para reavaliar sua informação.]

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Fim do Superciclo de Commodities

Commodities da AL

A “tese” dos analistas de bancos de negócios norte-americanos, aliás, que quebrariam na crise de 2008 caso não fossem encampados por bancos comerciais e amparados por dinheiro do contribuinte, é que a América Latina teve um grande impulso em seu crescimento na última década apenas por causa da elevação dos preços das matérias-primas. Os parciais analistas não enxergam mudanças governamentais nas políticas públicas. Os países reduziram a pobreza, e o consumo e a renda aumentaram. Mas a região também deixou escapar oportunidades nesse período de “superciclo de commodities“.

“O saldo, no final, não é tão bom. A América Latina não conquistou sua independência econômica”, afirma Alberto Ramos, analista do banco Goldman Sachs. “O crescimento da região depende de fatores externos, como liquidez e entrada de capitais.” O financiamento interno brasileiro possui Haveres Financeiros (M4) equivalente a 95% do PIB. Se considerar o valor de mercado das ações alcança-se 150%. Esta gente é autoreferente

Segundo ele, os países fizeram nesses anos poucas reformas estruturais e não conseguiram alavancar os investimentos, a produtividade e sua infraestrutura da maneira como poderiam. “O crescimento acelerou por fatores externos. A região teve mais sorte que méritos“, diz. Pode-se explicar fenômenos macrossociais por sorte?! Que reducionismo! Oh, analista, vá estudar!

Dentre esses méritos, Ramos afirma que a região se endividou pouco, acumulou reservas internacionais em dólar e não aumentou significativamente o gasto público no período de bonança. Só?!

“A situação não é dramática”, diz Ramos. “As economias andinas devem crescer 4% a 5%, em vez de 5% a 6%. Para crescerem igual à China, têm que fazer reformas“, afirma. Exato, têm “apenas” fazer uma Revolução Comunista, procriar uma população de 1,35 bilhão de pessoas, e solicitar aos EUA a transferência de tecnologia via IDE (Investimento Direto Estrangeiro), ou seja, transplantar a indústria norte-americana

Mas o porta-voz de O Mercado exige a adoção de “uma estratégia contundente de reformas estruturais, a mais contundente no setor de energia”! Sim, a ele faz falta, no momento, a especulação como commodities!

Ramos vê o México (“bola-da-vez”), que está levando adiante uma esperada reforma energética e outras estruturais, como um alento. “Claramente são uma boas reformas, mas não vão se materializar do dia para a noite. Levará de 5 a 6 anos até haver algum benefício.”

Para Ramos, “o paladino reformista”, agora que o cenário internacional não é mais tão favorável, “o ambiente ficou mais difícil” para fazer reformas. “Em geral, a América Latina só faz reformas quando está no fundo do poço. É melhor fazer quando as coisas estão bem, com espaço fiscal.”

Segundo ele, apesar de mais expostos por sua maior dependência da exportação de commodities, países como Chile, Peru e Colômbia estão mais bem preparados que o Brasil para esse novo momento. “Eles têm, principalmente, uma credibilidade de política econômica maior que a do Brasil.” Ah, é? Comentário típico de desconhecimento de causa…

O paladino de O Mercado desconhece a transição que estará acontecendo no País, até 2022. Até lá, políticas econômicas de curto prazo terão o papel de moderar a inflação, sustentar o emprego, e controlar o déficit em transações correntes. No bi-centenário da Independência política, caso não ocorra uma reversão política, o País já terá obtido uma infraestrutura (inclusive energética) e logística condicionante para crescer em ritmo superior, de maneira sustentada, inclusive com o benefício de exportação do excedente de petróleo somada às exportações de commodities agrícolas. O país possui uma diversificação setorial e um mercado interno que outros latino-americanos não possuem. Aliás, poucos emergentes (salvo os BRICS) possuem.

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Liberou Geral!

Liberou Geral

Desde que o caderno econômico da Folha de S.Paulo redefiniu sua linha editorial, inclusive alterando sua denominação de “Dinheiro” para “Mercado”, ele ficou horroroso em termos de reportagens e pior ainda nas manifestações de seus colunistas, com a exceção à regra apenas no caso de Marcelo Mirtehof, meu ex-orientando, ex-editorialista da Folha e atual economista do BNDES. Minha crítica diz respeito ao não pluralismo em termos de correntes de pensamento econômico, não há contraponto às sandices escritas por Alexandre Schwartsman, Luiz Carlos Mendonça de Barros, Kátia Abreu, Samuel Pessoa, Vinicius Torres Freire.

Edmar Bacha é diretor do Instituto de Estudos de Política Econômica / Casa das Garças, conhecido como “Ninho de Tucanos”. Naturalmente, encontrou espaço no caderno (FSP, 22/02/14) para esboçar o que será o Programa Econômico do candidato Aécio Neves (PSDB). De volta à era neoliberal, os tucanos desejam completar a obra inacabada,dada a resistência petista, do desmonte do Estado social-desenvolvimentista. Confiram a crônica do desastre anunciado. Começa com a demagogia que tem de abaixar os impostos — cuja arrecadação é necessária para corrigir as distorções na distribuição da renda e melhorar a qualidade dos serviços públicos — para tornar acessível os produtos da Apple!

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Ciclos de Aperto Monetário

Ciclos de Aperto Monetário

Cristiano Romero é editor-executivo do Valor. Publicou coluna (Valor, 22/01/14) onde defende que “uma das conquistas macroeconômicas do Brasil na última década e meia foi ter aumentado a eficácia da política monetária. À medida que ficou claro o compromisso das autoridades com a desinflação, menor se tornou o esforço do Banco Central (BC) para conter reajustes de preços e colocar o IPCA na meta ou próximo dela.

A má notícia é que isso não está ocorrendo no atual ciclo de aperto monetário, iniciado em abril do ano passado. Desde então, o Comitê de Política Monetária (Copom) elevou a taxa básica de juros (Selic) de 7,25% para 10,50% ao ano e, mesmo assim, já considerada a defasagem dos efeitos do aperto sobre a atividade econômica, estimada em algo entre seis e nove meses, a inflação não cedeu.

[FNC: Não é bem assim... Veja o gráfico que a taxa de inflação cedeu, mesmo depois de uma gradativa maxidepreciação da moeda nacional (57%!) desde 04/07/11, quando a cotação do dólar estava em R$ 1,558, até recentemente, quando chegou a atingir R$ 2,445. Este fenômeno era inédito na economia brasileira: evitou-se o choque inflacionário!]

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Choque Cambial e Novo Regime Fiscal

Geraldo Alckmin e Yoshiaki NakanoYoshiaki Nakano com mestrado e doutorado na Cornell University, é professor e diretor da Escola de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/EESP) de cujo quadro de professores faz parte o Ministro da Fazenda, Guido Mantega. No entanto, ele foi tesoureiro e secretário do governo tucano do Estado de São Paulo de 1995 a 2001. Aconselha, direta ou indiretamente, à Presidenta Dilma? Será um conselheiro-tucano? Não sei, mas ele foi o primeiro a publicar a ideia estaparfúdica de exterminar os títulos de dívida pública pós-fixados (LFT), o que impôs perdas aos investidores (devido à MtM), que agora exigem taxas de juros muito mais elevadas para carregar a dívida em longo prazo.

Fui aluno do professor Nakano no Mestrado da Unicamp, em 1975, quando ele voltou de Cornell, onde tinha sido colega do professor Luciano Coutinho, então coordenador do Curso. Ele substituiu, no meio do curso, o professor Antonio Barros de Castro. Naturalmente, ficamos insastifeitos. Parece que até hoje ele não nos perdoa…

Mas o propósito aqui é confrontar as receitas dos sábios economistas: como vimos nos posts anteriores, um defende preços livres, outro, política de renda, ou seja, preços e salários regulados, e um terceiro, choque cambial e política fiscal rígida. Todos estão certos?! Ou, no fundo, o que têm em comum é que nada sabem, são tentativas-e-erro, ou dito na “sabedoria convencional”, a ilusão de que com tateio de preços relativos básicos (câmbio, juro, salário, tributo) se alcançará o mítico equilíbrio geral em inflação, emprego e balanço de pagamentos. Em uma Economia Comportamental, Instucionalista, Evolucionista e Complexa, “há algo mais no ar além de aviões de carreira”

Yoshiaki Nakano publicou coluna (Valor, 10/12/13) onde defende que a prioridade é um choque cambial e um novo regime fiscal. Acho que a economia brasileira entrou em um novo regime fiscal desde que a dívida interna caiu para cerca de 35% do PIB.

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Política de Rendas e Inviabilidade Política

José Luiz Oreiro e Roberto FreireJosé Luis Oreiro é professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e presidente da Associação Keynesiana Brasileira (AKB). Filiou-se ao partido do Roberto Freire (PPS), aquele que faz de tudo para extravasar seu ódio anti-petista, devido à perda de espaço do ex-PCB (“Partidão”) entre os sindicalistas. Curiosamente, seu “quadro” defende uma política de rendas, onde salário-mínimo e salários dos trabalhadores sindicalizados seriam fixados por uma fórmula tecnocrática a la Mário Henrique Simonsen, que termina em arrocho salarial. Sendo aliado dos dissidentes ou renegados, Eduardo Campos e Marina Silva, ele acha que essa dupla conseguiria alcançar o poder para impor isso junto aos trabalhadores?! Só se estes ignorarem esse plano maquiavélico…

Leiam abaixo seu artigo “Muito Além do Tripé” (Valor, 10/01/14) e verifiquem sua proposta de administração da taxa de câmbio e austeridade gerada pelo novo regime fiscal e pela desindexação total da economia, o que inclui a regra de reajuste do salário mínimo. À primeira vista, é apenas outro tateio — tentativa-e-erro para realinhar preços relativos básicos –, mas o ônus social volta a cair sobre os trabalhadores como era antes de 2003.

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Preços Relativos Equilibram O Livre-Mercado

Léon Walras

Cristiano Romero é editor-executivo do Valor. Publicou coluna (Valor, 08/01/14) reportando um modelo do IBRE-RGV-RJ, onde, de acordo com a tradição neowalrasiana, só se atenta para os preços relativos. Os economistas neoclássicos, evidentemente, não fazem uma abordagem estruturalista da inflação, onde considerariam não só a diversidade da estrutura produtiva brasileira como também a elasticidade da demanda externa por produtos de exportação brasileiros. Com uma ótica estático-comparativa, não observam a dinâmica — variações ao longo do tempo — dos preços, verificando a defasagem da causa-e-efeito da maxi-depreciação da moeda nacional. Confira abaixo.

“A economia brasileira vive um aparente paradoxo: mesmo com forte desvalorização do real desde meados de 2011, o déficit em transações correntes quase dobrou. Com o real mais fraco, o normal seria os bens produzidos aqui ganharem competitividade e o país exportar mais e importar menos. Não foi o que ocorreu.

Em termos nominais, o real sofreu desvalorização, frente ao dólar americano, de 46% no período mencionado. [Melhor diagnosticando, houve uma maxi-depreciação da moeda nacional pelas forças do mercado de câmbio global.] Em termos reais (descontada a inflação), também perdeu bastante valor. Tomando-se a medida clássica – a diferença entre o CPI (a inflação ao consumidor dos EUA) e a inflação brasileira medida pelo IPCA -, a depreciação real verificada desde meados de 2011 chegou a 28%. Em outra medida, que leva em conta uma cesta de moedas dos principais parceiros comerciais do Brasil, a desvalorização foi de 27%.

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Inflação de Demanda devido a “Pleno Emprego” ou Inflação de Custos por causa de Choque Cambial?

IPP industrial

A apreciação do dólar frente ao real continua pressionando os preços na indústria, conforme mostram os dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os setores mais expostos às variações cambiais são alimentos, outros equipamentos de transporte, fumo e metalurgia.

Há correlação entre a alta da cotação da moeda norte-americana e o Índice de Preços ao Produtor (IPP). Em novembro de 2013, subiu 0,62%, depois de registrar queda de 0,45% no mês anterior. Foi a maior alta mensal do indicador desde agosto, quando o IPP subiu 1,43% frente a julho. No ano, a alta do IPP de novembro só não foi maior que as de agosto, (alta de 1,43%), junho (1,32%) e julho (1,21%). Não por acaso, nesses meses ocorreram as desvalorizações mais intensas do real frente ao dólar: 6,78% (junho), 3,68% (julho), 4% (agosto) e 4,89% em novembro, segundo informou o instituto.

Com o resultado de novembro, o IPP acumulou alta de 5,04% no ano de 2013 até aquele mês. Em 12 meses, o indicador teve alta de 5,47%. O IPP mede a variação dos preços dos produtos na porta de fábrica, negociados entre fornecedor e varejo, sem impostos e fretes, de 23 setores da indústria de transformação.

Apesar dos choques de custos cambiais, alguns economistas insistem que os choques inflacionários recentes são devidos à “inflação de demanda“, isto é, à pressão da demanda agregada sobre o mercado de trabalho. Alguns afoitos chegam a generalizar o fenômeno, localizado setorialmente, de “pleno emprego“. Rigorosamente, quando ocorre pleno emprego em setores produtores de  bens intermediários não pode ocorrer pleno em setores produtores de bens finais a não ser que estes substituam todos os insumos ou matérias-primas por importados.

Alex Ribeiro (Valor, 10/01/14) resenha um estudo de dois economistas do Banco Central conclui que a baixa taxa de desemprego vigente no país tem impactos relevantes na aceleração da inflação. O documento é um contraponto a textos feitos recentemente por outros especialistas que sustentam que há uma fraca relação entre uma coisa e outra. E coloca lenha no debate sobre as reais causas da debilidade da indústria nos últimos anos.

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