Mercado Consumidor formado pelas Classes D e E no Brasil

Renda nos domicílios mais pobres 2004-2012

Camilla Veras Mota (Valor, 21/07/14) informa que o mercado consumidor formado pelas classes D e E no Brasil tem chamado cada vez mais atenção do setor produtivo. Em 2012, a massa de rendimento das famílias que formam a base da pirâmide no país chegou a R$ 21,1 bilhões, valor 83,4% maior do que em 2004, já descontada a inflação no período. O aumento levou a participação do grupo no total da massa entre as classes de 10,8% naquele ano para 12,4%.

No recorte por domicílio, a renda entre os 40% mais pobres aumentou 51%, contra 31,3 % da média nacional. O valor bruto da média mensal, que chegou a R$ 841, ainda é considerado baixo se comparado às medidas internacionais de desenvolvimento humano. O volume de recursos disponível para consumo, porém, é cada vez menos desprezível para algumas empresas. Por isso, setores como os de alimentos e serviços, inclusive o financeiro, já desenham políticas específicas para vender para esse público. Continuar a ler

Mobilidade Social no Nordeste

Transformação da renda

Camilla Veras Mota (Valor, 21/07/14) informa que a classe média está ultrapassando o total de pobres e vulneráveis na única região do país em que ela ainda não era maioria. No Nordeste, segundo levantamento da consultoria Plano CDE com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2012, a classe C conta com 23,9 milhões de pessoas e há outros 23,7 milhões entre a D e E. Apesar de o primeiro grupo ser ligeiramente maior, ambos representam 45% da população.

Com essa estrutura, a pirâmide de renda da região, semelhante à do Brasil em 2004 – quando tanto a classe C quanto a D e E representavam cerca de 42% do total -, encontra mais espaço para o desenvolvimento social e uma consequente expansão do consumo. No Sudeste, por exemplo, 54% estão na classe média e 17% na baixa renda.

O Nordeste assistiu à diminuição significativa de sua população pobre nos últimos dez anos. Entre 2001 e 2012, o ganho de renda das famílias, mais expressivo entre as classes D e E, reduziu a participação da chamada base da pirâmide de 66% para 45% dos nordestinos. A tendência de crescimento real da renda entre os domicílios mais pobres da região indica que esse movimento deve continuar nos próximos anos.

O país passou por uma dinâmica semelhante, mas a “virada” aconteceu antes. Os dados da Pnad de 2012 apontam que pouco mais de 50% dos brasileiros fazem parte da classe média. Há outros 25% na classe baixa e 21% de ricos. Continuar a ler

Relatório sobre a Distribuição Pessoal da Renda e da Riqueza da População Brasileira

Composição percentual da renda monetária das famílias brasileiras 2008-09

Recomendo a leitura do artigo do Nelson Barbosa no Brasil DebatePara Conhecer Melhor a Distribuição de Renda e Riqueza no País.

Ele informa que o Deputado Claudio Puty (PT/PA) apresentou uma proposta de lei para criação do Relatório sobre a Distribuição Pessoal da Renda e da Riqueza da População Brasileira com periodicidade anual. Veja aqui a íntegra da proposta e acompanhe sua tramitação na página da Câmara dos Deputados.

Caso aprovado, o PL de iniciativa do Deputado Puty aumentará, em muito, o conhecimento da sociedade brasileira sobre si mesma, o que, por sua vez, auxiliará o Poder Executivo e o Congresso na construção e acompanhamento da política econômica, sobretudo da tributação pessoal e das transferências de renda às famílias.

Esta é, exatamente, a demanda que fiz em Entrevista à CartaCapital em 16/11/2012.

Desigualdade Social X Crescimento Econômico

Doláres para 1pc mais rico

Josh Boak (AP apud Valor, 06/08/14)  informa que economistas reclamam há algum tempo que a desigualdade cada vez maior nos Estados Unidos torna mais difícil para o país recuperar-se da Grande Recessão.

Agora, uma análise da empresa avaliadora de risco de créditos Standard & Poor’s (S&P) soma-se a esse argumento: a diferença cada vez maior entre os americanos mais ricos e os demais tornou a economia mais propensa a ciclos de grandes altas e quedas e desacelerou o processo, em seu quinto ano, de recuperação da recessão.

As disparidades econômicas parecem estar alcançando extremos que “precisam ser observados, porque estão prejudicando o crescimento“, segundo Beth Ann Bovino, economista-chefe para os EUA da S&P.

A crescente concentração entre o 1% dos americanos de maior renda foi um dos motivos que levou a S&P a reduzir as estimativas de expansão da economia. A agência projeta que, em parte por culpa da iniquidade, a economia vai crescer a um ritmo anual de 2,5% nos próximos dez anos, abaixo da previsão feita há cinco anos, de 2,8%.

[S&P baixou o triple A dos States?!] :) Continuar a ler

Concentração da Riqueza Pessoal em São Paulo

No andar de cimaConcentração de riqueza SP 2000Concentração de riqueza SP 2010Áreas de atuação do 1pc mais rico

Vanessa Correa (FSP, 03/08/14) afirma que as pessoas ricas estão cada vez mais ricas em São Paulo. Se o seleto grupo do 1% mais endinheirado da população já embolsava R$ 13 em cada R$ 100 ganhos na cidade em 2000, dez anos depois sua renda deu um salto: passou a abocanhar R$ 20 em cada R$ 100 do montante arrecadado – vindo de salários, aluguéis e investimentos.

Os dados fazem parte de um levantamento inédito da prefeitura que compara os dois últimos Censos do IBGE (2000 e 2010).

No mesmo período, outras camadas da população, como os 50% de menor renda, não experimentaram prosperidade parecida. Embora estejam ganhando mais hoje, a participação deles no “ordenado paulistano” ficou praticamente estagnada, passando de R$ 11,65 para R$ 10,57 em cada R$ 100.

Para fazer parte do 1% mais rico, é preciso ter uma renda individual de ao menos R$ 15 mil. Essa fatia acomoda pouco mais de 100 mil pessoas, entre empresários, altos executivos, profissionais liberais e gestores do próprio patrimônio. A população atual de São Paulo é de 11,8 milhões. Continuar a ler

Estabilidade

Rotatividade mão de obra

Os neoliberais que permanecem com o diagnóstico de “pleno-emprego” e pregam a necessidade do candidato da oposição ganhar para tomar medidas impopulares, como eliminar a política de aumento do salário mínimo real, necessitam rever sua análise conjuntural. A taxa de inflação em julho de 2014 ficou em 0,01%, demonstrando que a inflação está inteiramente sob controle, ao contrário do que os “analistas oposicionistas” dizem. Estão errando feio…

Camilla Veras Mota e Tainara Machado (Valor, 21/07/14) informam que o esfriamento das contratações de empregados com carteira assinada desde o fim do ano passado começa a ter reflexos negativos sobre o ritmo de avanço da renda. No segundo trimestre, o salário médio real dos admitidos no mercado formal foi 1,2% maior do que aquele pago aos contratados no mesmo período do ano passado, metade do avanço observado entre janeiro e março deste ano, de 2,4%, de acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) deflacionados pela LCA Consultores.

Com a redução do ritmo de crescimento dos salários de admissão, a diferença de remuneração em relação aos demitidos aumentou no período, o que para economistas mostra um mercado de trabalho menos apertado, em que:

  1. as empresas têm mais facilidade para substituir mão de obra mais cara por mais barata, e
  2. o poder de barganha do trabalhador por salários mais altos cai.

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Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030

Bangladesh - poverty

Daniela Chiaretti (Valor, 23/07/14) informa que o texto-base dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que devem substituir os Objetivos do Milênio em 2015, ficou pronto no dia 19 de julho de 2014, em reunião na sede da ONU, em Nova York. São 17 metas que vão desde a erradicação da pobreza e a adoção de padrões sustentáveis de produção e consumo até reduzir significativamente a poluição dos oceanos em 2025. A ideia é que sirvam de referência para a cooperação internacional nas próximas décadas.

A meta 1, por exemplo, fala na erradicação da pobreza em todos os lugares – evidentemente, ninguém se opôs a uma formulação tão vaga e abrangente. A novidade é o detalhamento que se segue – implementar, até 2030, sistemas nacionais de proteção social – e o tom ambiental e social – reduzir a vulnerabilidade dos mais pobres aos eventos climáticos extremos. Continuar a ler

Conflito Distributivo

Marcos Mendes

Denise Neumann (Valor, 11/07/14) entrevistou o economista Marcos Mendes, consultor legislativo do Senado, sem apresentar ao leitor a informação-chave a quem ele assessora. Mas como o livro dele tem prefácio do ex-diretor de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Marcos Lisboa (ex-professor da FGV, atual do Insper), e apresentação de Samuel Pessôa, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas Ibre/(FGV) e assessor neoliberal do Aécio, fica esclarecido qual ideologia ele apresenta: aquela que acredita que o individualismo, a flexibilidade dos preços e o mercado livre levarão a uma ordem espontânea equilibrada. Mas, nesse período pré-eleitoral, ler o que dizem os assessores serve para esclarecer as ideias, mais do que a retórica do candidato.

A hipótese neoliberal é que, ao longo dos 30 anos de redemocratização do Brasil, o Estado incorporou programas de proteção social aos mais pobres ao mesmo tempo em que ampliou as políticas de proteção e benefícios aos mais ricos e à classe média. Para dar conta de atender a todos – alguns com voto, outros com poder econômico, outros com poder de formar opinião na sociedade -, a carga tributária passou de algo próximo a 20% do Produto Interno Bruto (PIB) para os mais de 35% atuais. Com isso, “o Brasil teria ficado preso na armadilha de país ainda muito desigual e com baixo crescimento”.

“Para voltar a crescer, o Brasil precisa ser menos desigual, e o caminho passa por escolher as reformas que, ao mesmo tempo, tragam mais eficiência e redistribuam renda”. Na mira de o que precisa ser desmontado, diz Mendes, estão muito mais “as transferências de renda via BNDES, do que via Bolsa Família”.

A tese de Mendes – que virou o livro “Por que o Brasil cresce pouco? “, editado pela Campus – é de que o conflito distributivo no país ficou tão sério que ninguém sabe quem ganha mais ou quem perde mais, e qual a conta de cada um. Em parte polêmica de sua análise, ele defende que a democracia agravou esse conflito. Mas para quem acha que isso significa uma defesa de governos autoritários, Mendes deixa claro que pensa justamente o contrário. O livro de Mendes, doutor pela Universidade de São Paulo (USP), começou a ser desenvolvido em 2012, quando esteve no Departamento de Economia da London School of Economics. A seguir, os principais trechos da entrevista. Continuar a ler

Desigualdade da Riqueza: (Ganho de Capital + Crescimento da Renda do Capital) > Crescimento da Renda Per Capita

Contribuição das Classes de Renda para Gastos de Consumo

Marcelo Neri, ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e Presidente do IPEA, publicou outro artigo (FSP, 07/07/14) sobre assunto que trato neste modesto blog: a medição da riqueza. Reproduzo-o abaixo.

“Observadores como o colunista Clóvis Rossi colocam em xeque a queda da desigualdade de renda brasileira, misturando o nível com a sua variação ao longo do tempo, o que equivale a confundir a foto com o filme. Senão, vejamos: a nossa desigualdade de renda é ainda elevada, o 18º Gini mais alto em 155 países. Porém, está em queda desde 2001 pela Pnad, confirmada por outras pesquisas domiciliares como POF, PME e Censo. A alta qualidade da Pnad é atestada pela Wider da ONU.

Thomas Piketty revela níveis de desigualdade de renda pelo Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) mais altos que os calculados a partir de pesquisas domiciliares. Por exemplo, a desigualdade brasileira pelas pesquisas domiciliares é 13% mais alta que a norte-americana, mas igual à medida pelo IRPF deles. Porém, meus cálculos sobre os dados internacionais de pesquisas domiciliares e os do IRPF, reunidos por Tony Atkinson, o pai das modernas medidas de desigualdade, revelam, sem exceção, movimentos comuns entre elas com correlação de 0,89. Continuar a ler

Redistribuição do Capital Residencial Ocorrida no Brasil

MCMV

Marcelo Côrtes Neri é ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e professor da EPGE/FGV. Como não sou sectário, compartilho mais um artigo dele (Valor, 02/07/14), principalmente, quando ele reporta “with a little help from my friends”, isto é, quando reflete um belíssimo resultado social que demos início “com uma pequena ajuda dos nossos amigos” da Caixa!

“A casa própria é o ativo físico mais fundamental na acumulação de capital das famílias. O papel de reserva de valor permite por exemplo, transferir poder de compra para a velhice. Além disso, a casa própria presta serviços de moradia, um dos mais essenciais.

Avaliamos estas duas facetas da casa própria. Medimos o estoque de capital residencial e sua distribuição; e depois como as pessoas de diferentes estratos valoram subjetivamente a sua moradia e como ela impacta sua satisfação com a vida. Endereçamos estes pontos a partir da Pnad e da POF do IBGE, do Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) e pesquisa de campo nossa cobrindo lacunas dos dados.

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Queda na Desigualdade da Renda do Trabalho

desigualdades_sociais

Marcelo Neri é ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE/PR), Presidente do IPEA e professor da EPGE/FGV. Publicou artigo (Valor, 26/06/14) que soma novas informações à controvérsia apresentada no post anterior: queda na desigualdade de renda do trabalho X elevação na desigualdade da riqueza (ou renda do capital), tema que abrange todas as sociedades contemporâneas.

“O PIB é usado como síntese do sucesso econômico. Se quisermos aferir o progresso dos povos, temos de nos debruçar sobre outras dimensões da experiência humana. Um bom roteiro é encontrado no livro de Stiglitz, Sen e Fitoussi: “(Mis)Measuring Our Lives”. O livro reflete as conclusões de uma comissão de notáveis sobre como medir o progresso das nações aqui nomeadas em três vertentes: prosperidade, igualdade e sustentabilidade. Medimos estes elementos a partir de microdados de pesquisas domiciliares de uso público até abril de 2014. Continuar a ler