Formação da Culinária Brasileira – Escritos sobre a Cozinha Inzoneira

Em “Formação da Culinária Brasileira – Escritos sobre a Cozinha Inzoneira“, lançado no dia 26/05/14 pela editora Três Estrelas, estão reunidos sete ensaios do sociólogo Carlos Alberto Dória que passeiam pela problematização da nossa gastronomia.

Dória avança em relação aos registros de Gilberto Freyre (1900-1987) e Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), os dois intelectuais que mais contribuíram para o entendimento da culinária nacional, e derruba mitos fincados no folclore alimentar.

Um deles é o da miscigenação culinária, que iguala as contribuições de índios, negros e brancos. Ora, em um regime escravocrata, diz ele, não há o elemento mais importante para a criação de uma culinária: a liberdade. Os negros não tinham autonomia nas senzalas e os povos indígenas foram dizimados durante a colonização.

Outro, que a feijoada brasileira é um prato nacional surgido nas senzalas. Dória recorre a registros históricos que dizem que o feijão-preto enriquecido com carnes surgiu no Rio, no final do século 19.

Mais: discute a noção de regionalismo. Critica a divisão sociopolítica da nossa culinária (Norte, Nordeste etc.), “que só serve à indústria do turismo”, para redesenhar o território brasileiro a partir de “manchas descontínuas” de ingredientes como os seguintes: Continuar a ler

Nuances (por Gregorio Duvivier)

Nuances

Assento: põe-se embaixo. Acento: põe-se em cima.

Barco: qualquer embarcação. Barca: embarcação lenta.

Ciúme: inveja de afeto. Inveja: ciúme de coisa.

Contagiante: alegria. Contagiosa: doença.

Corda: em qualquer lugar. Cabo: a corda, quando num barco.

Cumpridas: as leis não são. Compridas: as leis são.

Depressão: tristeza de rico. Desespero: tristeza de pobre.

Despensa: armário. Dispensa: o que você não guarda na despensa.

Discriminar: o que é feito com o usuário de drogas. Descriminar: o que deveria ser feito com ele.

Ecologia: proteger o verde. Economia: multiplicar o verde.

Em trânsito: em movimento. No trânsito: sem movimento.

Eu te amo: quando se ama. Eu também: quando não se quer cometer uma grosseria.

Euforia: alegria barulhenta. Felicidade: alegria silenciosa.

Excelência: perfeição. Vossa Excelência: crápula.

Fantasia: roupa no Carnaval. Figurino: na televisão. Caretice desnecessária: no teatro contemporâneo.

Golfinho: baleia extrovertida. Tubarão: golfinho sociopata.

Golpe: revolução pra quem sofreu. Revolução: golpe pra quem participou.

Gravar: quando o ator é de televisão. Filmar: quando ele quer deixar claro que não é de televisão.

Grávida: em qualquer ocasião. Gestante: em filas e assentos preferenciais.

Guardar: na gaveta. Salvar: no computador. Salvaguardar: no Exército.

Javali: porco de raiz. Porco: javali metrossexual.

Língua: dialeto de rico. Dialeto: língua de pobre.

Menta: no sorvete, na bala ou no xarope. Hortelã: na horta, no mojito ou no suco de abacaxi.

Mentira: na vida real. Inverdade: na política.

Mitologia: religião sem adeptos. Religião: mitologia com seguidores.

Peça: quando você vai assistir. Espetáculo: quando você está em cartaz com ele.

Policial: em qualquer ocasião. Tira: quando você está sendo dublado.

Recife: quando você não é de Recife. Ricife: quando você é de Recife. Récife: quando você não é de Recife e está imitando alguém de Recife.

Teatro: em São Paulo. Tchiatro: no Rio. Tiatro: em Ricife. Téatro: na Bahia.

Ukulele: cavaquinho hipster. Rabeca: violino bêbado.

Vocabulário: léxico de quem não tem muito léxico. Léxico: vocabulário de quem tem muito vocabulário.

 

Fonte: FSP, 24/04/14

Nuances naturais para harmonizar

Ser Escritor?! Ora, Conta Outro Conto!

Romance X Conto

Miguel Sanches Neto, doutor pela Unicamp, professor da Universidade Estadual de Ponta Grossa, é romancista, poeta, contista e ensaísta. Autor, entre outros, do romance “A Máquina de Madeira” (Companhia das Letras) e da coletânea de contos “Então Você Quer Ser Escritor?” (Record), escreveu artigo (Valor – Eu&Fim-de-Semana, 21/03/14) sobre este último título: nossa ambição de ser escritor, de início, de contos.

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Moda Reaça (por Gregorio Duvivier)

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Aproveitando essa onda reaça que tá super-mega tendência, a gente está lançando toda uma coleção pra você, jovem reacionário, que quer gastar o dinheiro que herdou honestamente na sociedade meritocrática — apesar dos impostos, é claro.

Pode guardar a camiseta fedida do Che Guevara e raspar essa barba de Fidel. A moda guerrilheira é muito 2002. Quem tá com tudo neste outono é o jovem reaça. A moda é cíclica, gatinhos! Nesta estação, vamos aproveitar o aniversário da revolução democrática e tirar do armário a fardinha verde-oliva do vovô. E o melhor: não precisa nem limpar as manchas de sangue. Super orna.

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Meu Irmão (por Gregório Duvivier)

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Meu irmão faz aniversário no dia 19 — depois de amanhã, se você estiver lendo essa coluna no dia em que ela saiu. Cinco anos mais velho que eu, João faz 33 anos. Mas parece que sempre teve 33 anos, desde que nasceu.

Quando era pequeno, João gostava de brincar de trânsito. A brincadeira consistia em colocar os carrinhos enfileirados e fazer bibi e fonfon por horas e horas. Num dia muito animado, eventualmente, ele aparecia com uma ambulância — ió-ió-ió. Depois que ela passava, os carros retomavam suas posições e tudo voltava ao normal. Bibi. Fonfon.

Na ansiedade característica de uma criança de três anos, eu vinha com o carro a mil por hora, tentava uma ultrapassagem perigosa que gerasse uma batida cinematográfica e — Plouft! Cataplouft! E o João, com a calma de sempre, dizia: não agita. E voltava ao trânsito seu de cada dia. Feliz da vida.

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Palestras de Sebastião Salgado

O doutor em economia Sebastião Salgado somente assumiu a fotografia quando tinha 30 anos, mas a atividade tornou-se uma obsessão. Seus projetos de anos de duração capturam lindamente o lado humano de uma história global que muitas vezes envolve morte, destruição e ruína. Aqui, ele conta uma história profundamente pessoal da arte que quase o matou, e apresenta imagens espetaculares de seu trabalho mais recente, Genesis, que documenta um mundo de pessoas e lugares esquecidos.

Considerado um dos maiores fotógrafos mundiais de todos os tempos, Sebastião mostra um pouco da sua trajetória como fotógrafo do drama humano, até o ponto de que o sofrimento testemunhado quase o levou a morte. Este é o ponto de partida que fez Sebastião mudar sua perspectiva sobre a vida culminando em sua ação para reflorestar mais de 2 milhões de árvores numa área devastada, trazendo de volta a vida selvagem e a esperança de que este modelo possa ser reproduzido pelo mundo todo.

Gênesis

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Quando postei Resenhas de Livros Lidos Em 2013, não destaquei um livro que não só li, como, principalmente, viGênesis de Sebastião Salgado é uma obra-prima! É uma daquelas obras imperdíveis — com preço relativamente acessível (R$ 149,90) — que não se deve deixar de ler-e-ver antes de morrer! Fiquei emocionado e feliz de ter o prazer de ver-e-ler com vagar desde que a ganhei da Dayse, Ivo e Nina como presente de aniversário em 28 de setembro de 2013. Leva a pensar: como a terra é bela! Como a civilização humana representa a adequação às forças da natureza…

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